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Cobalamina (B12) e o Vegetarianismo

     A Vitamina B12 (Cobalamina), é uma vitamina hidrossolúvel e um dos nutrientes mais discutidos quando se aborda o tema da alimentação vegetariana, no entanto, apesar de ser de extrema importância, é errado assumi-la como uma preocupação exclusiva dos vegetarianos, uma vez que mais de 80% da população tem níveis baixos desta vitamina.


     A Cobalamina é uma vitamina essencial na síntese de ADN e na manutenção e integridade da mielina.
Serve para a formação do sangue, manutenção do sistema nervoso e funcionamento normal da vitamina B9 (ácido fólico). 
Para que a sua função seja desempenhada, idealmente precisaríamos de absorver 1 mcg de B12 por dia. Como a absorção desta vitamina é cerca de 50% da quantidade ingerida, a recomendação de ingestão é duplicada e acrescida de uma margem de segurança.
A vitamina B12 é necessária em doses mais pequenas do que qualquer outra vitamina conhecida. 10 mcg de B12 distribuídos ao longo de um dia fornecem tanta B12 quanta o organismo consegue utilizar.

Na ausência de ingestão de B12, os sintomas demoram normalmente cinco ou mais anos a se manifestar em adultos, embora algumas pessoas tenham problemas ao fim de um ano.
A B12 é a única vitamina que até ao momento não tem nenhuma fonte vegetal conhecida e comprovada da qual possa ser obtida. Os herbívoros, absorvem B12 produzida por bactérias no seu próprio sistema digestivo.

As recomendações para a ingestão de B12 variam de forma significativa de país para país. A dose diária recomendada nos EUA é de 2,4 mcg por dia para adultos subindo para 2,8 mcg por dia para mulheres a amamentar. 
A recomendação alemã é de 3 mcg por dia. As doses recomendadas são geralmente baseadas numa absorção de 50%, uma vez que isso é o típico para pequenas quantidades de B12. Para satisfazer as recomendações alemã e norte-americana é necessário obter B12 suficiente para absorver 1,5 mcg por dia, em média.
Com esta quantidade consegue-se evitar os sinais iniciais de deficiência de B12, como níveis ligeiramente elevados de homocisteína e de ácido metilmalónico (MMA). Uma elevação, ainda que pequena, nos níveis de homocisteína está associada a um risco acrescido de problemas de saúde, incluindo doenças cardiovasculares, pré-eclâmpsia e defeitos do tubo neural em bebés.

Dose Diária Recomendada:
0-6 meses:           0,4mcg/dia
6-12 meses:         0,5mcg/dia
1-3 anos:              0,9mcg/dia
4-8 anos:              1,2mcg/dia
9-13 anos:            1,8mcg/dia
> 14 anos:             2,4mcg/dia
Gravidez:              2,6mcg/dia
Amamentação:    2,8mcg/dia

            A Cobalamina é sintetizada por bactérias. 

Portanto, são as bactérias que produzem a vitamina B12 e não os animais.
         

O motivo da sua presença nas carnes e fígado deve-se ao facto dos animais ingerirem ou absorverem a vitamina produzida pelas bactérias. 

        Aliás, 50 a 90 % da vitamina ingerida pelos animais é armazenada no fígado. Por isso o fígado é citado como o principal “alimento” para obtenção de B12 e de alguns outros nutrientes.
        O que preocupa as pessoas na dieta vegetariana é o facto da B12 estar ausente ou em pouca quantidade, nos alimentos diariamente consumidos pelos vegetarianos.
No entanto, não podemos considerar apenas o que comemos, mas também a biodisponibilidade do nosso corpo para absorver aquilo que ingerimos, porque a cobalamina é mais influenciável pelo nosso metabolismo do que pela quantidade de B12 no alimento que facultamos ao organismo.

          Análogos da Vitamina B12

          Existem algumas substâncias ingeridas muito parecidas com a vitamina B12, mas que não têm a mesma função. São os chamados análogos da vitamina B12.


          Os análogos da B12 podem ser produzidos por técnicas de preservação de alimentos, pelo cozimento, pela microflora intestinal e por algumas bactérias presentes em alimentos ou algas.

 Esses análogos podem interferir com a absorção da B12 verdadeira ou apresentar efeitos tóxicos se absorvidos.

Alimentos como algas marinhas e espirulina podem conter análogos da B12.

 As algas, por um processo simbiótico com bactérias podem incorporar a B12 produzida pelas bactérias. As mais ricas são as Chlorella e Nori, mas os estudos sugerem que a B12 que elas contêm são inativas no nosso organismo. Além disso, podem alterar o exame de sangue, fazendo com que ela pareça mais elevada do que de facto é. 

Nem as algas e nem os produtos fermentados de soja (missô, temphê, shoyu) podem ser considerados fontes de B12.
Quando ingerimos um alimento com B12 precisamos torná-la disponível. Aí entra o processo digestivo. Não existe B12 livre nos alimentos. É necessário haver ácido no estômago para que a B12 seja retirada dos alimentos e é absolutamente necessário haver a produção de uma substância chamada Factor intrínseco. 
Quem produz o factor intrínseco é o estômago. Para ser absorvida, a B12 precisa estar ligada ao Fator intrínseco e este só se consegue ligar à B12 em meio alcalino.
A absorção da B12, ligada ao Factor intrínseco, ocorre no íleo terminal.

Assim, ao ingerirmos um alimento com B12, precisamos deixa-la disponível para ser ligada ao Factor Intrínseco.

 
Assim, inicia-se o processo digestivo, sendo o estômago o principal órgão responsável pela libertação da B12 do alimento, através das suas enzimas, em pH ácido. 


Após a sua libertação, esta, une-se ao Factor Intrínseco no intestino (pH alcalino).


Finalmente no íleo terminal dá-se a absorção do complexo Facto Intrínseco + B12.
Esta absorção também depende do cálcio, do pH alcalino e de componentes da bile.

  
Os sinais e sintomas da deficiência de B12



Na deficiência de B12 a célula vermelha (blasto) fica grande (mega), denominando-se anemia megaloblástica.
Os sintomas mais comuns estão relacionados com a redução de actividade cognitiva (concentração, memória e atenção), com desconforto para as actividades intelectuais, levando à dispersão, queixas de memória, além de formigueiro nas mãos e pernas.
Outras associações que ocorrem na deficiência: 
Ateroma (acúmulo de placas de gordura nos vasos sanguíneos), 
Defeito de formação do tubo neural (alteração que faz com que crianças nasçam com sérias alterações na coluna vertebral e paralisia das pernas), 
Esteatose hepática (acúmulo de gordura no fígado). 
Em estágios mais avançados, a pessoa pode ter sintomas psiquiátricos (depressão, transtorno obscessivo-compulsivo, manias) e pode até entrar em coma.

Tipicamente, as crianças mostram sintomas de deficiência de B12 mais rapidamente do que os adultos.
A deficiência de B12 pode conduzir à falta de energia e apetite, e impedir o desenvolvimento da criança. As crianças estão mais sujeitas a danos permanentes do que os adultos. Algumas recuperam por completo, mas outras demonstram um desenvolvimento retardado.
Mais uma vez, não existe um padrão de sintomas inteiramente consistente.

Causas mais comuns de deficiência de B12:

1) Deficiência alimentar;

2)  Distúrbios da absorção de B12

;
     a) Má absorção da cobalamina alimentar Ocorre em pessoas com pouca secreção de ácido no estômago. Sendo mais comum em idosos porque podem apresentar hipocloridria (pouco ácido no estômago), ou em pacientes que retiraram o estômago.


          b)    Insuficiência pancreática Alteração da secreção do pâncreas que dificulta a ligação da B12 com o Factor Intrínseco. Esse tipo de alteração pode ser decorrente do alcoolismo.


       c)    Alteração no funcionamento do Factor Intrínseco Alguns indivíduos podem ter alterações auto-imunes com produção de auto-anticorpos. O organismo cria anticorpos que destroem ou atrapalham a absorção do Factor Intrínseco. Sem este disponível não se consegue absorver a B12. Esse tipo de anemia se chama anemia perniciosa.

        d)   Infestação de bactérias no intestino delgado A contaminação de bactérias do intestino grosso no intestino delgado chama-se “Síndrome do intestino delgado contaminado”. As bactérias intrusas competem para consumir a B12 que chega ao final do intestino delgado. Esse tipo de complicação pode ocorrer em pessoas com divertículos (com estagnação), passagem anormal do cólon para o delgado (fístulas) ou estreitamentos intestinais (doenças inflamatórias intestinais).
          e)    Ressecção intestinal Pacientes que realizaram cirurgias retirando a parte final do intestino delgado.
       f) Má absorção alimentar Aqui são incluídas diversas condições que podem causar má absorção, por exemplos: sensibilidade ao glúten, lesão por radiação na região abdominal, doença celíaca, síndrome do intestino irritável...

    g) Interação medicamentosa Inúmeros medicamentos podem dificultar a absorção da B12.
3) Por perda ou excesso de consumo do organismo. Podemos perder pelas vias biliares, que levam a B12 do sangue ao intestino ou consumir em excesso pela demanda intelectual.

Exames laboratoriais que podemos utilizar

Hemograma: pode demonstrar a anemia (hemoglobina e hematócrito reduzidos) e o tamanho da célula (a parte do hemograma que mostra o tamanho é o VCM – volume corpuscular médio). 
Se a anemia é mais grave ocorre diminuição das células de defesa (neutropenia) e das plaquetas (trombocitopénia), no entanto, pessoas com poucas concentrações de B12 no sangue podem mostrar células de tamanho normal, não sendo de fiar a exclusividade do hemograma.
Reticulócitos: são as células vermelhas jovens. Na deficiência de B12 os seus níveis sanguíneos ficam reduzidos, no entanto, este exame pode ser influenciado por outros nutrientes e condições clinicas.


Ácido Metilmalónico: Na deficiência de B12 ocorre aumento do ácido metilmalónico. Este aumento pode ser detectado no sangue e na urina. No entanto, é um exame caro e dispensável. É usado mais para pesquisas clínicas.


Homocisteína: Aumenta na deficiência de B12 (e também na de B9 e B6). Algumas doenças como hipotireoidismo, a doença de Down e alguns medicamentos podem alterar os seus valores. A avaliação da homocisteína exige muitos cuidados.
Dosagem sanguínea de anticorpo anticélula parietal e de anticorpo bloqueador do factor intrínseco: serve para diagnosticar a anemia perniciosa. O anticorpo bloqueador do FI é mais específico.


Dosagem de folato (vitamina B9) no sangue: pode ser usado na dúvida da etiologia da anemia (B12 ou B9). A dieta vegetariana é rica em vitamina B9 (ácido fólico). Isto pode mascarar a deficiência de B12, que muitas vezes só é diagnosticada quando surgem alterações no sistema nervoso. A deficiência de B9 causa manifestações muito parecidas com as da deficiência de B12, excepto pela neuropatia.



TRATAMENTO DA DEFICIÊNCIA DE B12

Via oral: A via oral pode ser utilizada para tratar a deficiência, desde que saibam prescrever a quantidade e frequência necessária para a tratar.
Esta forma pode ser muito segura, mesmo para quem não tem estômago. Mas atenção que a dose a ser utilizada é o que determina a segurança dessa forma de uso.


Quando ingerimos doses inferiores a 5 mcg de B12 de uma só vez, cerca de 60% (3mcg) é absorvida.

Quando ingerimos uma dose de 5000 mcg, cerca de 1% (50mcg) é absorvida. Feitas as contas, um suplemento que contenha 1000 mcg é mais do que suficiente para suprimir as necessidades do organismo.


Não há relato de toxicidade pelo uso excessivo de B12.



Ao optar por ingerir suplementos de B12 (Metylcobalamina), os vegetarianos estão a obter a vitamina B12 da mesma fonte que todos os outros animais no planeta — microorganismos — sem causar sofrimento a nenhum ser senciente nem danos ambientais.

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